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O Brasil não tem índice de preço de terra urbana

O país mede apartamento anunciado, imóvel financiado e hectare rural. O terreno urbano, que é a matéria-prima de tudo isso, segue sem régua pública.

4 min de leitura

Decisões de dezenas de milhões de reais sobre terra urbana são tomadas no Brasil sem nenhum índice público de preço de terreno. O país mede bem o que se constrói sobre a terra e mede razoavelmente a terra que se planta. A terra que vira cidade fica no escuro.

Como o mercado costuma preencher o vazio

Na falta de régua, o mercado improvisa. Usa o índice de apartamentos como se ele dissesse algo sobre glebas. Usa o valor venal do IPTU, que nasce de planta de valores municipal e serve para tributar. Usa o preço pedido em anúncios de lotes, que é o desejo do vendedor. Usa, sobretudo, a memória do último negócio que alguém conhece. Cada um desses atalhos tem lógica própria, e nenhum mede o que precisa ser medido: quanto o terreno urbano efetivamente custou, onde, quando e com quais atributos.

A consequência não é apenas imprecisão. É assimetria. Quem está há décadas numa praça sabe quanto se pagou por cada área relevante. Quem chega, seja investidor, fundo ou incorporadora de fora, negocia com um número que não consegue auditar.

O que o Brasil mede, e o que fica de fora

Os três indicadores de preço imobiliário mais usados no país medem o imóvel pronto, não o chão.

  • O Índice FipeZAP acompanha preços de imóveis residenciais em 56 cidades com base em anúncios veiculados na internet, com recortes por cidade e por número de dormitórios.
  • O IGMI-R, da Abecip com a FGV, parte de laudos de avaliação de imóveis financiados, decompõe cada imóvel em 62 variáveis e cobre mais de 4 mil municípios, com série iniciada em janeiro de 2014.
  • O IVG-R, do Banco Central, usa o valor de avaliação dos imóveis dados em garantia em financiamentos residenciais a pessoas físicas, nas regiões metropolitanas do IPCA.

Os três são sérios e úteis. Os três medem unidade residencial construída, em que o preço mistura terreno, obra, acabamento e marca. Nenhum deles separa a parcela da terra.

Para a terra rural, o quadro é outro. O INCRA publica, por superintendência regional, os Relatórios de Análise de Mercados de Terras e as Planilhas de Preços Referenciais. Em São Paulo, o Instituto de Economia Agrícola faz levantamentos de preços de terras agrícolas desde o início da década de 1970, hoje para os 645 municípios do estado, num levantamento que a própria metodologia descreve como subjetivo e baseado na opinião de informantes qualificados. No setor privado, a Scot Consultoria acompanha o mercado de terras nos 17 estados mais relevantes na produção de grãos e gado de corte. O hectare de soja tem série histórica. O metro quadrado de gleba urbana, não.

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O que outros países já fazem

A ausência não é inevitável. O Japão publica desde 1970 a Land Market Value Publication: uma comissão de avaliação ligada ao ministério de infraestrutura fixa, a cada 1º de janeiro, o valor por metro quadrado de terrenos-padrão espalhados pelo país, 26 mil deles na seleção de 2017. A lei que criou o sistema declara que ele existe para oferecer um índice de valor de mercado para as transações comuns de terra.

Na Alemanha, o Código de Construção obriga comitês de avaliadores a derivar, a partir do cadastro de preços efetivamente pagos, valores médios de localização para o solo em todo o território, os chamados Bodenrichtwerte, recalculados ao menos a cada dois anos (§ 196 do BauGB).

Nos Estados Unidos, onde o mercado sempre foi mais transparente, a agência reguladora do financiamento habitacional publicou em 2019 um índice de preço de terra residencial construído com mais de 16 milhões de laudos de casas unifamiliares, com resultados por condado, código postal e setor censitário. O estudo que o sustenta mostrou que, entre 2012 e 2019, o preço da terra subiu mais rápido que o preço das casas nas grandes metrópoles, elevando a participação da terra no valor do imóvel, enquanto essa participação caiu nas metrópoles menores.

Esse último achado é justamente o que um índice de imóvel pronto esconde. Se a terra e a casa podem andar em direções diferentes, usar o preço do apartamento como proxy do preço do terreno é errar de forma sistemática, e errar mais onde mais importa.

Um exemplo genérico

Um investidor avalia comprar uma gleba urbana numa capital do interior. O índice de imóveis residenciais da cidade subiu bem acima da inflação nos últimos anos, e o vendedor usa esse número para justificar o preço. Mas a alta pode ter vindo de um punhado de lançamentos verticais de alto padrão numa região específica, sem relação com a franja onde fica a gleba. Pode ter vindo do custo de obra, que entra no preço da unidade e não no da terra. Pode ter vindo de anúncios que nunca viraram venda. O investidor não tem como separar essas hipóteses, porque não existe série pública que diga quanto se pagou por terreno urbano naquela cidade, ano a ano.

Ele decide com o que tem: alguns anúncios, duas ou três referências de corretores, a planta de valores do município e o índice errado. Não é falta de diligência. É falta de dado.

A regra prática

Enquanto o país não tiver uma régua pública para terra urbana, todo preço de terreno deve ser tratado como hipótese a ser reconstruída, e não como fato a ser aceito. Isso significa buscar transações efetivas, e não anúncios; comparar terrenos com terrenos do mesmo tipo e do mesmo vetor, e não com apartamentos; e chegar ao valor pelo que o terreno permite produzir e vender, como discutido em estudo de viabilidade de terreno: o que ele precisa responder. Um índice de imóvel pronto pode servir de contexto. Nunca de prova.

Se o preço do terreno que está em negociação fosse confrontado hoje com transações reais de terrenos comparáveis, quantas referências sobreviveriam?

Fontes

  1. Índice FipeZAP de Venda Residencial, informe de setembro de 2026 · Fipe
  2. IGMI-R: Índice Geral do Mercado Imobiliário Residencial (apresentação) · Abecip / FGV IBRE
  3. Índice de Valores de Garantia de Imóveis Residenciais Financiados (IVG-R) · Banco Central do Brasil
  4. Relatório de Análise de Mercados de Terras e Planilhas de Preços Referenciais · INCRA
  5. Metodologia do levantamento de preços de terras agrícolas · Instituto de Economia Agrícola (IEA-SP)
  6. Preço de terras agrícolas mais que dobra em cinco anos (levantamento Scot Consultoria) · BrasilAgro
  7. Land Market Value Publication · Ministry of Land, Infrastructure, Transport and Tourism (Japão)
  8. Baugesetzbuch, § 196 Bodenrichtwerte · Bundesministerium der Justiz (Alemanha)
  9. FHFA Working Paper Unveils New Land Price Index · Federal Housing Finance Agency (EUA)
  10. Working Paper 19-01: The Price of Residential Land for Counties, ZIP Codes, and Census Tracts in the United States · Federal Housing Finance Agency (EUA)

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