VGV não é receita: o número da prancheta e o dinheiro no tempo
O VGV é o preço de tabela multiplicado pelas unidades; a receita é o que entra no caixa depois de desconto, distrato, inadimplência e prazo.
VGV é um número de prancheta. É o preço de tabela de cada unidade multiplicado pela quantidade de unidades, como se tudo fosse vendido no dia do lançamento, à vista, sem desconto e sem desistência. A receita de um empreendimento é outra coisa: uma curva que se estende por anos e que chega ao caixa menor e mais tarde do que a tabela promete.
Como o mercado costuma usar o VGV
O VGV virou a moeda de comunicação do setor. Mede o tamanho de um lançamento, a ambição de um landbank, o porte de uma parceria. Até aí, nada de errado: é uma régua útil para comparar escala. O problema começa quando o VGV migra da apresentação para a conta do terreno. Permuta calculada como percentual do VGV, preço de terra justificado pelo VGV, margem medida contra o VGV. Em todos esses casos, um valor potencial passa a ser tratado como dinheiro.
Entre a tabela e o caixa existem pelo menos quatro filtros: o desconto negociado na venda, o distrato, a inadimplência ao longo do parcelamento e o tempo que a carteira leva para ser vendida e recebida. Nenhum deles aparece no VGV.
O que os dados públicos mostram
Os Indicadores Abrainc/Fipe, calculados pela Fipe com dados de 20 incorporadoras associadas, dão a medida de dois desses filtros. Com dados até junho de 2026:
- distrato: no segmento de Médio e Alto Padrão, a relação entre unidades distratadas e unidades vendidas foi de 24,3% no 2º trimestre de 2026, alta de 10,0 pontos percentuais sobre o mesmo período de 2025. No acumulado do ano, ficou em 21,0%. Na média de todos os segmentos, 13,2% no trimestre;
- velocidade: o VSO trimestral, que mede quanto da oferta disponível foi vendido no período, ficou em 19,2% no Médio e Alto Padrão, queda de 2,9 pontos em doze meses;
- estoque: a oferta final desse segmento equivalia a 15,6 meses de consumo ao ritmo de vendas observado.
Em linguagem direta: no alto padrão, para cada quatro unidades vendidas no trimestre, cerca de uma foi distratada no mesmo período. E o estoque existente levaria mais de um ano para ser absorvido ao ritmo atual, sem contar lançamentos novos.
Continue a leitura.
Cadastre-se uma vez e leia todas as matérias da newsletter, com as fontes completas.
O distrato tem regra, e a regra tem prazo
A Lei nº 13.786/2018 deu previsibilidade ao desfazimento do contrato, mas previsibilidade não é ausência de custo. Na incorporação, o art. 67-A da Lei 4.591/1964, incluído por ela, limita a pena convencional a 25% da quantia paga, ou a 50% quando o empreendimento está sob patrimônio de afetação. Ou seja: a maior parte do que o comprador pagou volta para ele.
No loteamento, a mesma lei incluiu o art. 32-A na Lei 6.766/1979, com regra própria:
o montante devido por cláusula penal e despesas administrativas, inclusive arras ou sinal, limitado a um desconto de 10% (dez por cento) do valor atualizado do contrato;
Lei nº 6.766/1979, art. 32-A, inciso II (incluído pela Lei nº 13.786/2018)
A restituição ao comprador do lote é paga em até 12 parcelas mensais, com carência de até 180 dias após o prazo contratual de conclusão das obras, se elas estiverem em andamento, ou de até 12 meses após a rescisão, se concluídas. E o § 2º do mesmo artigo condiciona o registro de nova venda daquele lote à comprovação de que a restituição começou. O distrato, portanto, não apenas devolve a unidade ao estoque: devolve dinheiro, consome prazo e trava a revenda até o acerto começar.
Um exemplo genérico
Um condomínio hipotético de 100 lotes, tabela de R$ 1 milhão cada, tem VGV de R$ 100 milhões. Esse é o número que vai para a apresentação. A receita depende de perguntas que o VGV não faz. Quantos lotes serão vendidos abaixo da tabela, e com que desconto? Se a relação distrato/vendas do segmento se repetir, quantas vendas voltarão ao estoque, a que custo de restituição e com que atraso na revenda? Quantos compradores atrasarão parcelas ao longo de um financiamento direto de vários anos? E, sobretudo, em quantos meses a carteira será vendida e recebida?
Cada resposta tira um pedaço do valor ou empurra o recebimento para frente. Um real que entra no quinto ano não vale o mesmo que um real no lançamento, e é esse deslocamento que costuma separar um projeto que fecha na prancheta de um que fecha no caixa.
O erro está em somar o que deveria ser descontado
VGV é estoque: mede quanto vale o produto pronto, a preço de tabela. Receita é fluxo: mede quanto entra, quando entra e quanto fica. Quando o preço da terra, a permuta ou a margem são calculados sobre o VGV, o risco de mercado é transferido em silêncio para quem assume o caixa. O vendedor da terra recebe sobre um número que nunca será realizado inteiro, e o empreendedor descobre a diferença no meio da obra.
A regra prática
Todo número derivado do VGV precisa passar por quatro descontos antes de entrar na decisão: preço efetivo de venda, distrato esperado para o segmento, inadimplência na carteira e curva de vendas e recebimentos no tempo, trazida a valor presente. Um estudo de viabilidade sério parte da curva, não da tabela, e os indicadores de lançamentos e vendas ajudam a calibrar a velocidade. No último projeto que você analisou, a margem foi medida sobre o VGV ou sobre o dinheiro que efetivamente entraria no caixa?
Fontes
- Indicadores Abrainc/Fipe, principais resultados, junho de 2026 · Fipe / Abrainc
- Lei nº 13.786/2018 (Lei do Distrato) · Planalto
- Lei nº 6.766/1979 (Parcelamento do Solo Urbano), art. 32-A · Planalto